Por volta do final da década de 1970, nascia o décimo filho de Dona Teresa no norte do Estado de Goiás, hoje atual Estado do Tocantins, analfabeta e sem marido, porque este havia morrido recentemente em acidente de caminhão. Aquele bebê não poderia ter idéia das transformações que estavam ocorrendo no mundo e no Brasil, que de algum modo lhe afetaria, nem aquela senhora não poderia se dar conta das mudanças em curso. O que sabia e lhe incomodava era que precisava criar seus filhos e dar a eles uma vida melhor que ela tivera. Esse era o seu desejo e isso se tornou sua inspiração.
A população de modo geral é muito solidária. E o fato de Dona Teresa ter dado à luz uma criança que ficou órfã de pai e tendo que criar 10 filhos comoveram as pessoas que colaboraram com ela para que pudesse alimentar seus filhos. O grande paradoxo é que com essa situação muita ajuda foi oferecida o que proporcionou a essa mulher um dos momentos de maior abundância até então em sua vida.
Alguns dos filhos de Dona Teresa já se encontravam em idade de trabalhar. E logo que conseguiram encontrar emprego as condições de vida melhoravam, de modo geral, para todos da família. Mas essa melhora ainda não significava qualidade de vida. Sabia aquela mulher que era preciso buscar outras alternativas para que além de sobreviver, pudesse viver uma vida com dignidade.
Por isso, anos mais tarde, por volta de 1984, tomou a decisão de se mudar para a capital. Essa decisão constrangia a todos, porque não poderiam imaginar como uma mulher analfabeta conseguiria sobreviver na cidade grande. Mas, com a decisão tomada, não voltou atrás, colocou os poucos móveis que possuía num caminhão “toco” e seguiu adiante.
Ao chegar a Goiânia se dirigiu para um bairro da periferia da cidade, onde apenas a linha de ônibus era asfaltada, era poeira quando fazia sol e lama quando chovia. Era tanta gente naquele bairro que os ônibus saiam de lá sempre lotados. Num primeiro momento, alugou um barracão para morar até conseguir um lote, doado pelo governo, onde construiu sua casa, a qual pode depois vendê-la para comprar outra naquele primeiro bairro que havia morado na capital.
Logo seus filhos conseguiram encontrar emprego, o que possibilitou aumento de renda na família. Ela trabalhava também numa escola estadual, pois tinha vindo transferida daquele município do norte de Goiás. Os filhos mais novos, inclusive aquele que não conheceu o pai, já estavam estudando, pois Dona Teresa acreditava que uma vida melhor só poderia ser alcançada através dos estudos, estudos que ela não teve, mas não viveria satisfeita se seus filhos não tivessem também.
Assim, a vida de Dona Teresa foi se organizando, alguns filhos começaram a casar e pararam de estudar, mas já tinham de onde tirar seu sustento. Outros filhos continuaram estudando, o que muito orgulhava aquela senhora, que não conseguia entender como foi possível tratar com dignidade cada um dos filhos. Nenhum deles se tornou marginal. Todos obtiveram um rumo na vida.
Agora são seus filhos que batalham para conseguir um lugar para morar. A vontade é de morar perto da mãe, mas nem todos conseguem porque uma habitação no bairro de Dona Teresa é muito onerosa. Alguns deles para conseguir um lugar para morar terão que ir para algum bairro mais longe ainda, ou até mesmo para algum município vizinho. Mas estão em melhores condições de encaminhar esses problemas do que teve sua mãe nos idos dos anos 80.
Hoje Dona Teresa vive a grata satisfação de cuidar de sua casa, porque já se aposentou; ir à igreja, porque ela é muito religiosa; e se preocupar com os netos, porque os filhos já estão criados.
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A história de Dona Teresa, apesar de ilustrativa, reflete um dos momentos em que o crescimento populacional de Goiânia se realizava com muita intensidade, tendo como um dos principais motivos o processo migratório. Morar na cidade grande, além do status que isso causava, significava também perspectivas melhores de vida. O sonho de uma vida melhor possivelmente deu certeza a muita gente que poderia migrar para a capital. A perspectiva da vida no interior que dependia da agricultura já não assegurava as condições de sobrevivência para boa parte das pessoas. O emprego no meio rural tendeu a diminuir relativamente.
Quem migrava para a cidade grande em busca de uma vida melhor, mas sem qualificação profissional ou com nível reduzido de escolaridade, tendia a se situar nas franjas da cidade, onde o aluguel era mais barato ou a possibilidade de conseguir comprar um lote ou mesmo uma casa se configurava com mais facilidade. O fato é que esses fatores contribuíram para a expansão da área urbana de Goiânia, fazendo com que seu crescimento transbordasse para outros municípios, que passaram a acolher boa parte da população migrante, quando as condições de aquisição de moradia na capital se tornaram reduzidas.
O governo, em muitos momentos, sentiu-se pressionado a oferecer moradia para a população ou dar a elas condições para que pudessem adquirir. Assim, surgiram diversos programas habitacionais, alguns mais significativos, outros menos, até que o padrão de renda da população tendeu a se elevar e fez com que o capital imobiliário passasse a ampliar seu leque de atuação e incorporasse a esse mercado segmentos sociais, que antes não tinham condições de determinar demanda efetiva. Os que não conseguiam adquirir imóveis na capital ou em áreas mais próximas do centro da cidade, devido ao seu valor, tiveram que mudar para áreas mais afastadas ou até mesmo para outros municípios.
É nesse sentido, que o mercado imobiliário passa a atuar de modo a atender diversos segmentos sociais. Nas décadas de 1970 e 1980, quando a legislação urbana era mais rígida e exigia que o loteador provesse a infra-estrutura, poucos foram os loteamentos aprovados. Na década de 1990, quando a legislação urbana foi relaxada, Goiânia viu explodir o número de loteamentos e, com isso, diversos segmentos de renda passaram a ser incorporados no mercado imobiliário para assegurar demanda efetiva em relação à oferta que estava sendo feita.
O que se observa é que, no momento em que os municípios adjacentes à capital passam a receber boa parte da população que não tinha condições de viver nessa cidade, o poder público colabora com o capital imobiliário, possibilitando que este tenha menores custos na produção da mercadoria que oferece, obtendo assim maior rentabilidade. Além disso, o capital imobiliário se utiliza de outras estratégias para aumentar sua lucratividade. Uma das mais emblemáticas é a agregação de valor ao loteamento que será lançado. Isso é feito normalmente com a construção de equipamentos públicos próximos a área do loteamento. Exemplo disso pode ser conferido com a construção da sede da Prefeitura num local que só mais tarde veio a ser construído alguns condomínios horizontais fechados de alto padrão.
Por outro lado, à medida que a cidade cresce e sua população passa a se estabelecer economicamente, alguns equipamentos privados são ampliados para outras regiões da cidade, possibilitando valorização das áreas próximas a estes equipamentos, como são os casos de bancos, shopping centers e hipermercados. Os empreendimentos imobiliários que são lançados, depois que essa área se valorizou, passam a ter um preço muito mais alto do que teria caso não houvesse a existência desses equipamentos. Mas isso só ocorre quando a população passa a ter condições de demandar esses novos produtos que lhe são ofertados.
O poder público colabora de outra forma com capital imobiliário quando aquele, para executar sua política habitacional, lança loteamentos muito distantes da área urbana construída. Isso faz com que ele seja obrigado a levar infra-estrutura para estes bairros, o que possibilita redução de custos para os loteadores privados das áreas intermediárias, ao mesmo tempo em que torna o seu imóvel mais valorizado.
Todas essas formas de ação do capital imobiliário, que, por muitas vezes, recebe a colaboração do poder público, dão feições particulares ao espaço urbano. Entender o modo como ocorre a produção recente do espaço urbano é o objetivo central deste trabalho. Para que isso ocorra, torna-se necessário que essa explicação esteja fundamentada em base teórica. Neste sentido, além de várias outras contribuições, este trabalho assentou sua análise no conceito de externalidade ou efeito de exteriorização, utilizado por David Havey, e na perspectiva conceitual de Pierre Bourdieu, em que se baseia o estilo de vida das pessoas e, por conseguinte, suas condições objetivas segundo sua posição ocupada na estrutura social, o que possibilita compreender como as pessoas segundo essas características se distribuem no espaço urbano.
Para tanto, tornou-se necessário que se fizesse uma análise das transformações sócio-econômicas no mundo e no Brasil que tivesse rebatimento na estrutura urbana e, em particular, no contexto da Região Metropolitana de Goiânia. Isso se colocou como uma necessidade à medida que se considerou que para compreender a produção do espaço urbano era importante compreender os motivos que levaram aquela situação. Neste caso, a compreensão da estrutura sócio-econômica, bem como suas mudanças, com destaque para a análise da estrutura populacional, mostrou-se relevante para a compreensão do caso particular de Goiânia. Esta discussão ocupa o primeiro capítulo deste trabalho.
Houve a preocupação, todavia, de analisar Goiânia no contexto de sua Região Metropolitana, uma vez que aquilo que ocorre nesta cidade afeta seus vizinhos mais próximos e, por outro lado, dada as condições de oferecimento de serviços nesses municípios Goiânia também é afetada pelo seu entorno, não seria mais possível interpretar os processos sociais ocorridos na capital desvinculada do seu contexto metropolitano.
Assim, tornou-se necessário compreender como é o padrão de organização sócio-espacial da Região Metropolitana de Goiânia, para que se pudesse a partir disso analisar as diferenças na estrutura urbana, bem como nas condições de vida das pessoas que se localizam em cada lugar da cidade. Para tanto, utilizou-se da metodologia elaborada pela Rede Observatório das Metrópoles, tendo em vista que nela se relaciona a estrutura social com o território urbano, conferindo uma tipologia sócio-espacial. Essa tipologia mostra as diferenças existentes no espaço urbano, tomando-se como proxy da estrutura social uma hierarquia socioocupacional que tem como variável principal a ocupação de trabalho, obtido pelo Censo Demográfico do IBGE. Com base nessa tipologia, tornou-se possível a avaliação das condições de renda, escolaridade e de moradia das pessoas, pois essas variáveis são das mais importantes para definição da qualidade de vida das pessoas. E isso foi realizado no segundo capítulo deste trabalho.
O terceiro capítulo, por sua vez, ao tomar por base a compreensão das transformações sócio-econômicas que afetaram a dinâmica urbana e o padrão de organização sócio-espacial da Região Metropolitana de Goiânia, passou a analisar algumas formas de intervenção no espaço urbano pela iniciativa privada, com a colaboração do poder público, principalmente referente à construção de novos empreendimentos imobiliários, como habitação unifamiliar, habitação coletiva e a construção de comércio em Goiânia.
Por isso e por outras.... tenho muita admiração por você. Abraços e sucesso!Emiliano Rivello
ResponderExcluirParabéns Marcelo. Sua dissertação certamente será devidamente reconhecida como um excelente trabalho. Sucesso nesta empreitada.
ResponderExcluirGrande Abraço!
Hugo Rezende Linhares
Parabens mesmo!
ResponderExcluirMuito legal a historia inicial! :)
abraços,
Artz