sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Reflexões de Carnaval (I)

É curioso andar pelas ruas do Rio de Janeiro na Quarta-feira de Cinzas e observar as pessoas transitando de um lado para outro, andando rápido, ora verificando as horas, ora insatisfeitas com o semáfaro que ficou vermelho. Indiferentes umas com as outras pessoas, cada um vai seguindo o seu caminho em ritmos sempre frenéticos.

Essa cena é típica de uma metrópole. Já no começo do século XX, George Simmel escreveu sobre “A metrópole e a vida mental”, analisando como a morfologia de uma grande cidade é propícia para que se desenvolva formas de condutas sociais em que cada indivíduo para conseguir superar todos os impulsos em que está sujeito necessita criar mecanismos que o permita viver a vida social. Esses mecanismos podem ser observados, grosso modo, na indiferença que as pessoas têm, por exemplo, ao passar por um medingo e não considerar a sua abordagem ou o seu pedido.

Mas o que tem de tão curioso nisso, se a cena é típica de uma metrópole? É curioso o fato de nos últimos cinco dias o Rio de Janeiro ter sido palco de uma das festas mais populares do mundo, o Carnaval. O que se via nas ruas eram pessoas fantasiadas, descontraídas, alegres e que procuravam chamar atenção umas das outras, num clima de muita euforia e desprendimento.

Isso fica muito evidente para as pessoas que tiveram a experiência de participar dos blocos de rua. Neles, as pessoas ao som das músicas carnavalescas cantavam e dançavam, as vezes, com muita irreverência. A sensação que se tinha era que ali, em cada bloco de rua, estava sendo realizada a celebração entre amigos, entre pessoas que se conheciam e queriam compartilhar umas com as outras suas emoções, seus sentimentos. Também isso era observado mesmo entre pessoas que não se conheciam. Ser abordado por um desconhecido não causava estranheza, já que era o espaço onde as pessoas estavam dispostas a esse tipo de conduta. Diferente do dia a dia de uma metrópole.

Um amigo meu estrangeiro, europeu, chamou atenção para o fato de aqui no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, as pessoas se abraçarem, independente de serem homens e mulheres, mas de cumprimentar umas as outras com abraço, sempre carinhoso. Só mesmo um estrangeiro para perceber algo que se tornou tão trivial nos relacionamentos existentes entre nós. O que é relevante nisso é que os abraços foram dados e recebidos não apenas entre as pessoas que se conheciam, mas também entre não conhecidos, que acabavam de se conhecer, sendo apresentado ou não por outras pessoas.

A magia de tudo isso tem muito a ver com a reunião das pessoas, com a música e dança que contagiavam a todos, mesmo quem não soubessem a letra ou não soubessem cantar. De modo geral, as pessoas entravam no mesmo clima da festa, como se fosse uma onda a carregar as águas que se encontram a frente. Algo parecido com isso se vê nos estádios de futebol quando um time faz um gol. A comemoração da torcida desse time faz com que todos que estejam na arquibanca (desse time) vibrem pelo gol feito, mesmo se o espectador não torcer para time que realizou o gol. É preciso muita resistência para não se deixar contagiar. Não foi diferente nos blocos de carnaval de rua.

Eu tive a oportunidade, e muito fôlego, de participar de 12 blocos de rua no carnaval desse ano, no Rio de Janeiro, de sexta-feira a terça-feira de carnaval, sem contar os blocos que saríram antes do carnaval começar. Além disso pude também assistir a um único desfile das escolas de samba, na Marquês de Sapucaí – Sambódromo da cidade –, que por sinal foi da escola campeã de 2010, Unidos da Tijuca.

Desses blocos de rua que participei a metade saiu na Zona Sul da cidade, onde se concentra parte significativa da classe média e também da classe alta da cidade. A outra metade ou foi na região Central da cidade, que também há uma concentração importante da classe média da cidade, embora haja maior mistura com segmentos sociais da classe baixa. Mesmo assim, o público desses blocos era na sua maioria moradores da Zona Sul, não obstante haver também pessoas que viam de outros lugares da cidade.

O uso de classe que está sendo feito aqui está relacionado com a concepção de classe weberiana e não com a concepção marxista, pelo menos aquela mais ortodoxa, em que as classes sociais se constituem na relação de produção. Para a concepção weberiana, a classe social se constituem em função do status ou prestígio social, em que há uma decorrência tanto dos aspectos econômicos e também de aspectos culturais.

Essa descrição se torna relevante porque três falas me chamaram atenção: duas ocorridas em um mesmo dia e num mesmo lugar e a outra partilhando com uma amiga a experiência de cada um no carnaval. Fui com dois amigos, aquele estrangeiro que fiz referência e outro amigo carioca, participar de um bloco que saía a noite – O Cacique de Ramos – na Av. Rio Branco, que fica no centro do Rio de Janeiro. Um primeiro comentário foi “como as pessoas aqui são diferentes”; o outro comentário, apesar de ter sido feito com ironia, também foi significativo, dizia o seguinte “aqui não vamos encontrar ninguém que conhecemos”. A fala da minha amiga, que ao final de um dos blocos de carnaval teve que cruzar a pé a mesma avenida Rio Branco, observando que estava havendo o desfile de outro bloco de carnaval, foi “parecia que era outro carnaval”.

Essas três falas, ao meu ver, compartilham de um mesmo sentimento (ou percepção) e coloca em relevo diferenças existentes no carnaval do Rio de Janeiro, que não são apenas diferenças do carnaval. Esse sentimento comum era de que estávamos diante de pessoas de níveis econômicos e sociais diferentes dos nossos, ali traduzidos nas suas manifestações culturais, na maneira como o carnaval estava sendo vivenciado (não significa que não haja pessoas economica e socialmente baixo na Zona Sul do Rio de Janeiro, mas as relações ali estabelecidas, também diferenciam essas pessoas das de outras regiões da cidade. Volto a esse ponto mais adiante). E só prestamos atenção nisso, porque vivenciamos outras experiências carnavalescas muito parecidas nesse aspecto e que, por isso, tornava essa experiência específica, da Av. Rio Branco, impactante aos nossos olhares. Mas também porque éramos “estrangeiros” nesse lugar.

Na Av. Rio Branco, há desfiles de vários blocos de carnaval de rua e de escolas de samba ou que não fazem parte dos grupos de acesso e de elite das escolas de samba do Rio de Janeiro, ou que não fazem parte das agemiações que possibilite ascender àqueles grupos. Normalmente, são blocos de carnaval ou escolas de samba, cujas pessoas são oriundas da Zona Norte do Rio de Janeiro, ou de Favelas, ou mesmo de Baixada Fluminense, que corresponde há alguns municípios da Região Metropolitana. Essas regiões são econômica e socialmente mais pobres, embora haja também segmentos sociais com níveis mais elevados econômica e socialmente.

É importante ressaltar que para os meus amigos que participaram comigo do desfile do Cacique de Ramos, esse bloco foi um dos melhores que eles presenciaram durante o carnaval, para não dizer que foi o melhor. Sem dúvida, quando a bateria do Cacique começa, não há quem fique sem dançar. É muito contagiante e feito com muito profissionalismo.

Porém, gostaria ainda de refletir sobre aquelas falas. Acho que ela nos diz muito sobre nossa sociedade. Pirmeiro, embora o carnaval seja um momento em que as pessoas se confraternizam e celebram juntas, seja um momento em que deixam a indiferença de lado, os grupos sociais não se misturam, pelo menos não se misturam tanto; segundo, os grupos sociais são diferentes não apenas cultural ou economicamente, mas também territorialmente e isso fica explícito numa festa popular como é o carnaval; e terceiro, embora estivéssemos numa mesma cidade, há diferenças da forma como os grupos que se diferenciam econômica e socialmente vivenciam o carnaval.

Aquela fala que diz “como as pessoas aqui são diferentes” nos ajuda a pensar no que somos e o que nos tornam diferentes dos outros, inclusive capazes de perceber essas diferenças. Não estou falando apenas de diferenças individuais, embora também elas sejam nítidas e importantes, mas sobretudo de diferenças sociais. Neste aspecto, Norbert Elias é uma grande referência, seja na obra que apresenta seu método “A sociedade dos indivíduos”, seja em uma de suas obras que fica muito evidente a aplicação de seu método “Os estabelecidos e os outsiders”. Tando numa como noutra, esse autor nos mostra a sociedade, sendo ela uma sociedade de indivíduos, pensada a partir de uma configuração social, ou de forma mais óbvia como uma rede, sendo cada um dos nós a constituíção das relações que cada um vivencia. Assim, chega a afirmar que o “Eu” só existe porque há um “Nós”. Uma tradução rasteira disso é que cada indivíduo é o que é decorre das múltiplas relações de que faz parte ou que fez parte ao longo da vida. O ponto principal é que cada um se constitui como indivíduo tendo como referência nessa constituição os outros indivíduos. Isso sendo a sociedade para esse autor.

Quando se pensar para além dos indivíduos, podemos também, como Norbert Elias fez em “Os estabelecidos e outsiders”, pensar numa configuração social que os grupos sociais se reconhecem como grupos, partilham dos mesmos valores, possuem os mesmos códigos sociais de referência, na medida em que, ao mesmo tempo, se diferenciam dos outros grupos sociais. E nesse processo de diferenciação há relações de poder, inclusive a própria maneira de classificar essas diferenças. Neste sentido, a Zona Sul do Rio de Janeiro pode se tornar um todo homogêneo (mesmo que não seja em sua plenitude) na relação que possui com a Zona Norte ou mesmo com a Baixada Fluminense. E quando se fala em Zona Sul, há toda uma carga simbólica cheia de significados do que é a Zona Sul. Ela em si não é capaz de gerar esse simbolismo, só o é na relação com as outras regiões, inclusive com as favelas nela existente. E por falar em favela, podemos também explorar essa contribuição teórica do Norbert Elias, mesmo sabendo que há pessoas que moram em favela com níveis elevados de escolaridade, algumas com renda também elevada, mas a carga simbólica que essa terminologia carrega não expressa as diferenças existentes na favela.

Por isso, perceber que as “as pessoas daqui são diferentes” é reconhecer que não faz parte daquele grupo, mas que compartilha códigos sociais e valores de outro grupo social, que só se constitui na relação com outros grupos sociais, mesmo que isso só se torne perceptível naquele momento.

“Aqui não vamos encontrar ninguém que conhecemos” expressa como disse anteriormente, não apenas diferenças sociais que existe entre as classes, mas também diferenças territoriais. Pierre Bourdieu, em seu texto seminal intitulado “O efeito do lugar”, deixa claro que o espaço social se inscreve no espaço físico. Para este autor, o espaço social se apresenta sob múltiplas dimensões, as dimensões por ele destacada como principais, mas não exclusivas, são a cultural e a econômica. Ao considerar o espaço social representado por um plano cartesiano, como fez em “A Distinção” e também em “Razões Práticas”, observa-se que a primeira dimensão expressa de um lado o aspecto cultural, chamado por ele de capital cultural, e de outro o aspecto econômico ou capital econômico, sendo que a segunda dimensão expressa o volume de capital que as pessoas possuem.

Neste sentido, ao analisar apenas a primeira dimensão, como este autor analisou para o caso francês, poderemos verificar que as pessoas altamente dotadas de capital cultural estão em lados opostos das pessoas que possuem muito capital econômico, normalmente não são os professosres universitários as pessoas mais ricas da sociedade, por exemplo. Por outro lado, tanto professores universitários quanto as pessoas mais ricas economicamente tende a estarem do mesmo lado na segunda dimensão em oposição as classes mais baixas, como os operários ou ambulantes, por exemplo.

O espaço social que é caracterizado dessa forma por Bourdieu possui rebatimento no espaço físico, na medida em que cada classe social tende a se concentrar geograficamente próximas umas das outras. Esse é um dos motivos que fazem com que certas localizações se valorizem de maneira diferentes uma das outras. Ou seja, não há aqui apenas o aspecto econômico definindo os valores de cada localização.

No caso do carnaval, embora as pessoas de classes mais baixas estivessem fazendo sua apresentação no centro da cidade, podemos observar que aquele espaço físico da Av. Rio Branco foi inscrito socialmente por essa classe. E não apenas isso, que os outros blocos da Zona Sul são diferentes porque estão localizados geograficamente em lugares em que a elite da sociedade se localiza (seja essa elite cultural ou econômica).

É por este motivo que as pessoas das classes mais elevadas, ao participarem dos blocos da Zona Sul, têm maior probabilidade de encontrar pessoas conhecidas, que do mesmo ocorrer caso elas participem de blocos que “geograficamente” são caracterizados pelas classes mais baixas. Não é por acaso que “aqui não vamos encontrar ninguém conhecido” é uma frase cheia de significado.

“Parece que é outro carnaval” traduz o que tentamos abordar nas contribuições de Norbert Elias e Pierre Bourdieu. Mesmo estando numa mesma cidade, há diferenças de classe, essas classes compartilham códigos, valores e condutas diferentes umas das outras, elas só se constituem na relação de uma com as outras e elas se inscrevem em lugares diferentes no território. Tudo isso faz parecer que é mesmo outro carnaval, embora seja também uma festa popular como foi vivenciada por todos os blocos que passei.

Poderíamos diante de tudo isso nos perguntar por que as pessoas das classes mais baixas não participam dos blocos que saem na Zona Sul, por exemplo, como nós tentamos fazer ao estarmos com elas nos “seus” blocos ou por que essas classes não participam das mesmas atividades culturais que as pessoas de outras classes frequentam, uma vez que há muitas atividades que são gratuitas. Ao discutir isso durante o carnaval com esses amigos que mencionei, as respostas mais evidentes foram a distância e a falta de informação.

De fato, numa cidade como o Rio de Janeiro, não exatamente a distância física, mas a acessibilidade é um fator que coibe as pessoas de classe baixa que não moram na Zona Sul de participarem das mesmas atividades que as classe mais elitizadas participam. Também a falta de informação é um aspecto que se deve levar em conta. Nem todas as atividades que são realizadas gratuitamente as pessoas passam a ter conhecimento. É preciso está na rede social adequada para saber os eventos que serão realizados. Mas somente esses aspectos não explicam tudo.

As classes ou grupos sociais que se constituem na medida em que se diferenciam umas das outras e se constituem localizações também diferentes, passam a compartilhar gostos, preferências e estilos de vida que também a tornam diferentes. Por isso não basta ter acessibilidade ou informação para poder participar dos mesmos eventos culturais, é necessário que haja também o compatilhamento do mesmo capital cultural para que isso possa ocorrer. Neste sentido, percebemos que as classes ou os grupos sociais estão separados não apenas social e territorialmente, mas também cultural e simbolicamente.

O carnaval é só em alguns aspectos diferente do que ocorre nos demais dia do ano numa metrópole. Embora as pessoas estejam mais propicias aos encontros, há ainda muitos desencontros, como diria o poeta. Agora, a partir da Quarta-feira de Cinzas, tudo parece como antes.

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