Durante o Carnaval, na noite em que fomos participar do Cacique de Ramos, dois amigos e eu, ao final do desfile do Bloco, ficamos na Av. Rio Branco tomando cerveja e conversando sobre o desfile que foi simplismente sensacional, como um de meus amigos costuma falar. Conversa vai, conversa vem, observamos um catador de lata (dessas latinhas de cerveja) na maior alegria, enquanto fazia o seu trabalho, fazendo malabarismos, dançando e provocando as pessoas que por ele passava.
Este fato nos chamou muita atenção, porque em geral catadores de lata não demonstram tanta alegria assim na realização de sua tarefa, ainda mais porque como há muitos catadores, normalmente eles precisam concorrer entre si. Mas esse catador, percebia-se, era mesmo diferente. Não que estivesse despreocupado com seu trabalho, mas via-se nele o desejo de aproveitar aquele momento que estava vivendo.
Diante dessa situação começamos a conversar com ele. Uma pessoa muito simpática no tratamento e um rapaz muito bonito. Ele nos falou de sua alegria, do seu dia a dia e, de modo geral, da sua vida. Sempre com um sorriso no rosto estampado. Curioso foi quando eu perguntei a ele seu nome, ele respondeu com um ar de seriedade. Então, eu o provoquei, dizendo que havia ficado sério. Ele sem titubiar, respondeu que seu nome era uma das coisas mais importantes na vida dele, por dizer quem ele era, por isso precisava ser dito com seriedade.
A conversa se estendeu mais e um dos amigos, que é estrangeiro – europeu –, ficou muito sensibilizado com aquela situação. O fato de um catador de lata poder demonstrar tanta alegria, sendo um catador de lata.
Como ganhamos a confiança desse trabalhador, ele deixou conosco seu saco cheio de latas e foi procurar outras latinhas, longe da gente. O interessante foi que muitos outros catadores tentaram pegar o saco que estava conosco porque viam claramente que nós não nos apresentavamos como catadores. Mas não deixamos, é claro, que isso ocorresse.
Na ausência do catador de lata, o nosso amigo estrangeiro resolveu ajudá-lo, sem que ele soubesse. Foi então a procura de latinhas também. Conseguiu várias e ficou empolgado com aquela situação. Resolveu, portanto, continuar a sua ação.
Nessa tentativa de busca de latas, houve um momento em que vieram dois outros rapazes “tirar satisfação” com nosso amigo estrangeiro. Não entendemos o que estava acontecendo – nem eu, nem meu outro amigo que estava comigo –, mas procuramos saber porque aqueles rapazes brigava com nosso amigo.
Esses dois rapazes eram vendedores ambulantes de cerveja. Normalmente para demonstrar que nas caixas de isopor há cerveja, os ambulantes colocam latas vazias em cima da caixa, inclusive com a marca da cerveja que está vendendo. O nosso amigo estrangeiro havia pedido a ele a lata que estava sobre a caixa de cerveja. E os rapazes que deram a lata viram-no colocando-a dentro do saco de lixo. Isso foi o motivo para a confusão.
Os rapazes interpelavam nosso amigo pelo o que ele fez e ele, sem entender a situação, dizia que havia pedido. E de fato foi o que ocorreu. Depois de entender a situação e explicar ao nosso amigo estrangeiro, nós vimos que os rapazes estavam “tirando uma onda” com o ocorrido. A partir disso, ficamos conversando com eles. Soubemos um pouco sobre a dinâmica do seu trabalho e de suas vidas. Eles eram pessoas muito interessantes. Até compramos outras cervejas deles.
Passado o carnaval lembramos desse fato quando nos encontramos novamente, dessa vez na presença de uma outra amiga que temos em comum.
O nosso amigo estrageiro dizia que ele fez aquilo porque ficou sensibilizado com o catador de lata e queria de alguma maneira demonstrar isso a ele. Que é possível as pessoas contribuirem uma com as outras. Era a sua prentensão.
Nós falamos para ele que, embora sua conduta tenha sido honesta e valorosa, era perigoso o que tinha feito, pois ele estava entrando num mundo desconhecido, cujos códigos não entendia. E não necessariamente a vida do catador de lata iria mudar porque ele teve aquela conduta.
A partir disso, nós pudemos refletir que na pretensão que as vezes temos de mudar o mundo, o que estamos fazendo mesmo é nos mudar. O meu amigo estrangeiro pode não ter influenciado em nada na vida do catador de latas, quando procurou ajudá-lo, mas com certeza voltará para o seu país com outra dimensão de mundo.
adorei essa historinha, tão densa de significados. Melhor ainda foi a sua forma leve e sensível de interpretar.
ResponderExcluirum abração, da sua nova leitora.
Cristiane
Obrigado, Cristiane.
ResponderExcluirVocê sempre tão gentil!
Espero mesmo que volte outras vezes a este blog.
Sensacional!!! Hahahaa...
ResponderExcluirMuito bom Marcelão, adoraria que todos os momentos deste carnaval fossem tão bem escritos e descritos quanto este. Ao ler aqui, vivi tudo de novo.
Parabéns, continue escrevendo!
Abração,
Alan
Gostei! Muito bem escrito, vivido e sentido! Gostei principalmente da conclusão ao final: podemos não mudar a realidade, mas mudamos ao "tentar"... Para mim, isso já é uma mudança grande!
ResponderExcluirBejim
Joisa