Por Felipe Addor e Marcelo Ribeiro
Quatorze de junho de 1978, primeiro jogo do Brasil da semi-final da Copa do Mundo, que acontecia na Argentina. A família inteira em frente à televisão, na pequena sala da pequena casa. A tensão era grande. Após a histórica vitória de 70, o Brasil decepcionou em 74, e tentava mostrar de novo ao mundo sua superioridade. Apesar de enfrentar um adversário teoricamente mais fraco, o Peru havia feito uma primeira fase brilhante, terminando como líder do seu grupo, à frente inclusive da temida Holanda, atual vice-campeã mundial. Já o Brasil havia feito uma primeira fase sofrível, tendo garantido sua passagem à segunda fase apenas no último jogo; um grande sufoco.
Horas antes do jogo começar, Dona Margarida havia entrado em trabalho de parto, no quarto ao lado. Tudo foi feito com o apoio da parteira já conhecida de todos. Afinal, ela que ajudara no nascimento dos outros meninos.
Seu Francisco estava ansioso com o nascimento do quinto filho. Era como se fora a primeira vez. Mas, ao mesmo tempo, não sabia controlar sua ansiedade na expectativa de boa atuação da seleção brasileira. Por determinação da parteira, o pai tinha que acompanhar o rebento da sala, o que aumentava seu nervosismo. Estava dividido, mas concordara; pelo menos não perderia a partida de futebol.
Quando começou o jogo, por muitos momentos não se lembrava do que estava ocorrendo ao lado, mas quando lembrava, ficava muito apreensivo. A simultaneidade dos acontecimentos aumentava a tensão, e cada minuto pareciam dez; e nem o filho nascia, nem o gol saia. Não sabia qual sentimento controlar, para que lado olhar. Por vezes, se percebia gritando “cruza na área” para sua mulher, e “força amor” para a televisão, tamanha a intensidade dos simultâneos sentimentos.
Dona Margarida sofria. As contrações eram enormes, e o tamanho da cabeça do menino fazia frente a uma bola de futebol. Suas dores eram ora acalmadas, ora estimuladas pela parteira.
Aos 15 minutos do primeiro tempo, falta para o Brasil na intermediária. Toninho, o lateral direito, pega a bola com carinho, coloca no chão; gira a bola como procurando o ponto exato de chutá-la. Vagarosamente, dá treze passos para trás, tomando distância para a esperada pancada, única alternativa para um falta de tão larga distância.
Eis que surge Dirceu, que estava a um metro da bola com a mão nas cadeiras, e, pegando o arqueiro de surpresa, cobra a falta com perfeição, numa parábola de aula de física, de perna canhota no ângulo esquerdo do inconsolável goleiro Quiroga. A sala explode: GOOOOOOOOOOOOL. No quarto, um choro eloquente surge. Os gritos e o choro confundiam-se e anulavam-se, mantendo a distância entre os envolvidos em cada evento.
O pai da criança, único na sala que possuía capacidade emotiva-auditiva de ouvir o choro, corre desesperado até o quarto, comemorando o nascimento do seu filho, embebido pela euforia do tento da seleção. Nada poderia ser mais emocionante que isso. Depois de pegar a criança em seu colo, não titubeou em afirmar: “esse aqui vai ser jogador de futebol. Seu nome vai ser Dirceu”. O segundo gol do jogador brasileiro no jogo apenas ratificou a acertada escolha paterna.
Aquele humilde e aconchegante lar estava tomado de plena alegria. O Brasil fez mais dois gols e, naturalmente, motivo para festejar não faltava.
Dirceu, com seus 15 anos de idade, havia ouvido essa história várias vezes. E por muito tempo acreditou que poderia ser jogador de futebol. Reconhecia-se como um grande jogador, pois todos elogiavam sua habilidade em campo. Não era muita gente, é verdade, visto a pequena população de sua cidade do interior. Mas, como o peculiar episódio do seu nascimento chegou ao conhecimento de todos, o garoto crescera sendo estimulado a tornar-se jogador.
Mesmo com muitas dificuldades, a família se empenhou para que Dirceu fosse fazer um teste nos times da capital, criando a oportunidade para que a profecia virasse realidade.
Foi em dois times de renome. Foi primeiro ao seu time do coração, com a convicção que poderia defender a camisa do time que tanto torcia. Sem muito sucesso e com muita decepção procurou o time rival na esperança de ver seu sonho realizado, mas também ali não encontrou a resposta que queria ouvir. Sua idade atrapalhou, afinal, segundo os avaliadores, os fundamentos do futebol para profissionalização têm que ser incorporados a partir dos 12 anos, ou antes. Já não era o caso de Dirceu.
A decepção tomou conta de seus pensamentos. Sentia uma dor enorme pela derrota fora de campo. Todo seu futuro estava jogado nisso. O que faria agora, se, até aquele momento, tudo o que fez foi direcionado para se tornar um jogador de futebol. Não via em si mesmo qualquer outra habilidade. Seu desempenho escolar era pífio, numa escola de má qualidade. Teria que começar de novo, construir outros sonhos para o futuro; mas parecia haver um imã mental que, qualquer caminho diferente que ele começava a imaginar, fugia do seu controle e parava dentro do campo de futebol. Tudo isso passava pela sua cabeça de forma desconexa.
De um dia para outro, aproveitando a rapidez com que as más notícias correm, a população começou uma mobilização oculta na cidade para apoiar uma nova vida para o rapaz. Suas lamúrias sobre o tempo investido que perdeu nos gramados eram rechaçadas pelo reconhecimento do quanto ele havia aprendido a disciplina, o trabalho em equipe, o respeito ao adversário, a dedicação. Quem da cidade não sabia das noites de bebedeiras dos seus amigos, que ele recusava sem pestanejar por causa do jogo no dia seguinte? Além disso, dentro de campo era um líder; quase sempre carregava a braçadeira de capitão. E todos reconheciam seu papel.
A solidariedade da população daquela cidade fez pulularem oportunidades de trabalho para Dirceu. As pessoas quase brigavam para que ele fosse trabalhar no seu açougue, na sua papelaria, na sua lojinha. E sua habilidade de lidar com as pessoas rapidamente o tornou um ótimo funcionário nas pequenas biroscas por onde fora contratado.
Aos poucos, foi ganhando espaço no comércio da cidade; de faxineiro na padaria Pão Bom passou a atendente na farmácia Saúde; a caixa na loja de roupas Só Sucesso; a gerente no supermercado Bom Bonito e Barato. No entanto, como em qualquer cidade pequena interiorana, esse crescimento é limitado; inclusive no salário. Longe de ter o perfil de poupador, Dirceu aproveitava-se da sua habilidade no comércio para ajudar a melhorar a casa de sua família, que muito pouco tinha mudado desde aquele gol no Peru; os almoços de domingo, agora sempre eram acompanhados de refrigerante. Isso sem falar nos pedaços de picanha que recebia de sobras do açougue, do desconto que tinha no supermercado, das roupas para a irmã que ele conseguia pela metade do preço.
Anestesiados pelas melhorias em seu cotidiano, seus pais não impuseram muita resistência quando Dirceu avisou que ia largar a escola, pois estava atrapalhando sua carreira. Mesmo que seus pais tenham falado nos seus 16 anos de vida sobre a importância dos estudos, seria quase um desrespeito, uma afronta, seus progenitores quererem atrapalhar seu futuro: “ou vocês querem ficar a vida toda nessa miséria?!”.
Com 20 anos, vendo que aquela cidade era pequena demais para seu potencial, resolveu arriscar a vida na cidade grande. Foram em vão os apelos dos familiares, e mesmo do seu avô, que havia passado quarenta anos como servente de obra e dava graças a Deus por estar de volta à sua terra natal. Ademais, estando na capital estaria mais perto de seu grande sonho de ver um clássico entre seu time de coração e seu grande adversário.
Entretanto, como diz o poeta, o sonho feliz de cidade rapidamente torna-se realidade. Como de uma hora para outra, aquela facilidade de lidar com as pessoas, aquela sagacidade no meio comercial, evaporam-se frente à nauseante face de uma grande cidade.
Atordoado, ele percebe que as pessoas não se falam bom dia na rua e nem oferecem um cafezinho. Para comer, tem que pagar antes; fiado é palavrão. Não entende porque andam tão depressa, e buzinam ao invés de pedir licença. De repente, a apertada casa de sua família torna-se uma mansão frente à quitinete suja que sua parca poupança permite pagar, e o insistente barulho do acasalamento felino no jardim vira um murmurinho perto do barulho do trem que treme sua casa dia e noite. As boas referências que ele trazia do trabalho no Bom Bonito e Barato, na Só Sucesso, surpreendentemente não abalavam em nada os empregadores.
Mas nada o assustou mais do que os moradores de rua. No começo, não entendia porque aqueles senhores e senhoras, aqueles meninos e meninas, às vezes com bebês no colo, não voltavam para suas casas. Tudo bem, na sua cidade ele conhecia amigos que brigavam com seus pais e fugiam de casa por um ou mais dias. Mas daí a levar colchão e cobertor, montar barraca e pendurar roupa?! Via isso com muito espanto.
Desnecessário dizer que não tinha muitos amigos nesse novo ambiente. O pouco de relação que conseguira construir foi com outros frequentadores de um bar próximo de sua quitinete, onde procuravam assistir em todos finais de semana os jogos do campeonato estadual. As conversas eram quase todas sobre futebol: os jogos históricos, os lances controversos de partidas, os gols inesquecíveis e, claro, de vez em quando sobrava algum comentário sobre mulheres. Mas eram amizades de bar, nunca se chegava à profundidade dos assuntos. A realidade é que mesmo nesse contexto, sentia-se sozinho. A tristeza só era extemporaneamente aliviada quando seu time ganhava.
Aos poucos, as dificuldades que encontrava para conseguir emprego, o aluguel e a cara comida, que iam sugando suas reservas, foram o fazendo compreender o porquê daqueles moradores de rua. E assustava-se cada dia mais, pelo medo de poder, em um prazo não muito longo, estar ao lado deles.
Depois de dois meses, com sua baixa qualificação profissional e pouca escolaridade, conseguiu a duras penas um emprego de entregador, na pizzaria onde o amigo de um primo era assistente de cozinha.
Não tinha carteira assinada. Recebia uma remuneração fixa que mal garantia seu aluguel. O que dava sua renda mesmo eram as gorjetas. Seu desespero fazia com que fosse trabalhar todo dia, 14 horas por dia, num ritmo que derrubaria qualquer um. Por vezes, seu cansaço era tanto, que a moto é que parecia o estar guiando. Trabalhando no limite de sua capacidade física, não era raro ficar doente. Mas para não ir trabalhar, era preciso estar realmente inabilitado, pois representava, além do distanciamento das gorjetas, um corte percentual no seu salário.
Aprendeu que receber gorjetas é uma arte. Sua facilidade no trato com as pessoas contribuiu para que ele fosse construindo uma elaborada estratégia para aumentar sua renda.
Primeiro, era preciso identificar o cliente. Se fosse um casal, era importante dirigir-se ao homem, para evitar seus olhares oblíquos ciumentos. As meninas são simpáticas, mas é importante ficar a um metro da porta para que elas não se sintam ameaçadas. Os idosos solitários adoram que pergunte como foi seu dia, para que tenham a oportunidade única de contar algo que já não interessa a ninguém.
Algumas dicas do garçom da pizzaria o ajudaram a montar as frases que faziam os clientes sentirem-se bem servidos, “confira se é o sabor que o senhor pediu”, “por favor, veja se está quentinha”. Até ao papel de mâitre pizzaiolo ele se prestava, “se vocês gostam dessa de gorgonzola, da próxima vez tentem a seis queijos”, “essa pizza o senhor pode pedir com azeitona que fica uma delícia”.
Sua estratégia de sedução era tão bem montada e precisa, que, com seu tato e experiência, tornou-se capaz de adivinhar o valor das gorjetas. Analisando o bairro, o prédio, a porta do apartamento e as características do cliente – idade, vestimenta, adereços –, ele tinha um grau de acerto de 80%, “claro, deixando uma margem de um real para mais ou menos”, como ele gostava de dizer.
Foi justamente através da economia que fizera com as gorjetas, que teve a oportunidade de assistir ao grande clássico estadual. Era uma oportunidade muito especial. Só agora, depois de 23 anos, tendo se dedicado tanto e abandonado o futebol, passado por poucas e boas na grande cidade, ele ia assistir ao seu time do coração ao vivo e a cores, podendo xingar o juiz, reclamar das caneladas dos atacantes aos berros. Foi um momento mágico em meio a tanta dificuldade.
Era como se aquele jogo fosse um ponto de inflexão em sua vida, e tudo dependia da vitória do seu time de coração. Depois de mais de dois anos comendo o pão que o diabo amassou, ele já estava numa situação limítrofe, quase optando por voltar à sua terra natal. A decisão de ir ao jogo foi como uma chance final que estava dando a si mesmo, como um escanteio aos 47 do segundo tempo que até o goleiro sobe para cabecear. A derrota do seu time na sua estreia na arquibancada representaria uma profunda tristeza, a gozação dos amigos, e a provável volta à casa. Já se vencesse, o destino estaria em aberto.
De fato, sua vida tomou outros rumos depois desse jogo. Ao chegar, estádio lotado, já quase começando o jogo. Depois de muitos empurrões e cotoveladas, conseguiu sentar ao lado de um senhor que aparentava ter uns 50 anos. Logo percebeu, de rabo de olho, que ao lado desse senhor havia uma moça, morena de olhos cor de jambo, com a cabeça encostada em seu ombro, na ansiedade e impaciência do início do jogo. Percorreu os olhos pelo estádio quase que comendo com olhos aquele espetáculo, tantas vezes visto na televisão. Apesar da animosidade com o adversário, não desgostou de sua torcida. Tanto achou que estavam fazendo também uma festa bonita que quase comentou com o senhor; mas depois percebeu que não devia. Na percorrida de olhos, acabou comendo com os olhos também sua vizinha morena, que a partir daí passou a ter mais atenção dos seus olhos que o espetáculo.
O jogo começou e aos poucos os pensamentos sobre a moça que o envolvia foram se dissipando, ao mesmo tempo em que começava a reclamar da marcação, das entradas duras do adversário. Começou a falar com o senhor do seu lado, falando que o time estava sem pegada, que o técnico tinha que ter trocado o volante pelo armador. O jogo truncado parecia prometer um sonífero zero a zero, até que nos minutos finais, o inesperado: num chute despretensioso do volante, a bola desvia no zagueiro e entra. A torcida vai à loucura. Dirceu se agarrou aos vizinhos como fossem velhos amigos ou irmãos. Quando percebeu, estava apertado contra o ombro do senhor e os peitos da morena e logo se conteve.
A partida terminou. Saiu do estádio com aquela singela sensação de torcedor de que o time havia ganhado porque ele estava ali. Ele e seu vizinho foram conversando até a saída do estádio. Apresentaram-se, Dirceu, Ramon; e teve a confirmação que a moça que o acompanhava era sua filha, Aline. O senhor havia sutilmente deixado escapar um certo incômodo quando Dirceu se apresentou, e não se conteve em perguntar a inspiração do nome. Dirceu ficou atônito quando, logo da sua orgulhosa explicação, Ramon respondeu: Fui eu; e Dirceu: Eu o quê?; Eu que tomei esse gol. Se perguntássemos a cada brasileiro qual o nome do goleiro do Peru no jogo contra o Brasil na Copa de 1978, certamente 99,9% nem conseguiria arriscar; mas estávamos diante de um representante da amostra de 0,1% que, por motivos diversos e peculiares, responderia: Ramon Quiroga.
A inusitada coincidência levou Ramon a convidar Dirceu para uma cerveja, a qual acompanhou toda a história do peruano sobre sua vinda ao Brasil logo depois da decepção de 1978. No bar, com menos gente, barulho e fumaça, ele pode apreciar com mais calma a beleza de Aline; que também estava atenta aos traços fortes e masculinos de Dirceu. Saíram dali como amigos, trocaram telefone, prometendo assistir outros jogos juntos.
Instaurou-se uma felicidade no coração de Dirceu que ele jurava que havia sido esquecida em sua cidade natal. Era uma mistura que às vezes destacava a vitória do seu time, outras vezes o prazer de ter conhecido a vítima do seu homenageado, e mais vezes ainda os olhos de jambo da bela Aline.
Dos três sentimentos, o último era o mais teimoso. Por toda a semana não parou de pensar em Aline. Chegou na semana seguinte, queria ligar para Ramon, combinar de ir ao jogo; mas como seria possível ele ir a dois jogos num mesmo mês? Com que dinheiro? Do jeito que andam os preços de ingressos de futebol, em breve ele mal ia poder ir a um jogo por semestre. Assistindo aos jogos pela televisão, mal conseguia prestar atenção no jogo, angustiado por não estar sentado perto de Aline. Sofria nos gols por lembrar daquele abraço involuntário, daquele volume se apertando em seu peito.
A insistência de sua mente em pensar nela vinha até atrapalhando sua eficiência no trabalho. Já não tinha mais aquela habilidade para inchar as gorjetas. Havia se tornado um entregador como outro qualquer. Numa noite chuvosa como muitas outras, tocou a campainha com a pizza quente na mão, cabeça baixa. De repente, a surpresa: antes de ver quem era, saltaram sobre seus olhos os olhos cor de jambo, que só tinha visto na grande vitória no clássico. Só depois de ver esses olhos ele articulou o nome na nota, Ramon, ao pai de Aline.
Já ela, em virtude do capacete e da roupa preta e volumosa contra a chuva que ele usava, não o reconheceu de primeira; mas logo em seguida seu coração explodiu em palavras: É você, Dirceu? Ramon, lá do fundo, não pôde acreditar e o chamou para dividir a pizza. Dirceu gaguejou; pensou no chefe, nas pizzas a entregar, nas gorjetas que ainda tinha a ganhar, no bom papo do coroa Ramon, nos olhos e peitos de Aline. Agradeceu o convite, mas tinha que trabalhar.
Agora ao sofrimento do amor platônico com os peitos de jambo da Aline, somava-se o profundo arrependimento de não ter ficado por mais alguns minutos com a vítima de seu homenageado, e, principalmente, admirando aquela inesquecível morena.
Mas não demorou mais que uma semana até que Dirceu, na antessala da cozinha da pizzaria com seus companheiros de entrega, entre a descrição do primeiro e do segundo gol de seu time no último jogo, viu escrito em uma das notas de entrega: Aline. Não chegou a consultar o motoqueiro da vez para pegar o papel, a pizza e sumir com sua moto. Ao chegar ao seu destino, parou o elevador no meio do caminho, ajeitou o cabelo. Quando Aline abriu a porta, mostrou novamente uma cara de surpresa, mas uma surpresa menos contundente; seria até difícil dizer se havia uma cara de surpresa com um sentimento de surpresa, ou se havia uma simulada cara de surpresa com um sentimento de felicidade. E dessa vez, não obstante o chefe, as gorjetas, ele não pensou duas vezes em aceitar a cerveja oferecida pela mulher dos olhos de jambo.
Foi uma noite inesquecível; menos pela intensidade do amor que houve entre os dois ou pelo barulho que incomodou o prédio inteiro; mais pela confirmação de que o homônimo do algoz de Ramon, este que nessa noite estava no Peru; mais por falta de precaução do que por decisão própria, entrava de vez na família.
Com a gravidez, o casamento de Dirceu e Aline foi acelerado. Uma cerimônia simples, mas que contou com os amigos do bar, os companheiros de pizzaria e até sua família, que, a contra-gosto, veio enfrentar as garras da cidade grande para conhecer a nova família do seu ex-filho prodígio.
Aline era ainda estudante, e não conseguiram sustentar por muito tempo a casa de Dirceu, ainda mais considerando os novos gastos que estavam por vir com o bebê e que já começavam a dar suas caras. Tiveram que abandondar essa moradia e buscar outra possibilidade. Conseguiram um barraco localizado numa área de posse, às margens de um córrego. Não era o ideal de moradia, mas se viam sem qualquer alternativa.
Poucos meses depois de casados, já no novo barraco, nasceu sua primeira filha, Sofia. A alegria de Dirceu foi surpreendente para ele mesmo. Não achou que um pedaço desse de gente fosse ter tanto impacto. Mais do que nunca via sentido em sua vida e agora todos seus sonhos se transfundiram para sua filha. A possibilidade de uma vida melhor para Sofia era o maior incentivo que poderia ter.
Quando voltava do trabalho, passava o tempo todo com ela. A carregava para todos os lugares; até para a pelada do futebol, todo domingo. Primeiro, no carrinho de bebê; depois, brincando do lado do campo de várzea com outras crianças.
Não se sabe se por influência paterna ou por puro gosto que vem desde a barriga, coisa dessas que nunca se poderá definir, desde pequenina Sofia gostava de brincar com bola. Mesmo que lhe dessem bonecas ou outros jogos ela sempre ia atrás do seu brinquedo predileto. Foi assim que Dirceu também começou a envolver Sofia no mundo do futebol e, junto com isso, inculcar na cabeça da menina o gosto pelo seu time do coração. Sempre comprava camisas do time, chinelas, toalha e outros apetrechos; até os primeiros brincos que Sofia usou possuíam o símbolo do time que Dirceu torcia; que, a essa altura, também já era o time de Sofia, porque com sete anos de idade muitas crianças já tomaram o que talvez seja a primeira grande decisão para toda a vida, quer se arrependam ou não.
FINAL 1
O sentido da vida de Dirceu dissipou-se num dia de verão quando saiu para o trabalho e choveu fortemente. A chuva foi tão forte e inesperada, que as principais ruas da cidade estavam todas alagadas. Não havia possibilidade de trafegar, tampouco andar a pé. As pessoas ficaram todas ilhadas nos abrigos que conseguiram encontrar para se protegerem da chuva. Essa chuva se prolongou por todo o dia. Inevitável era tentar voltar para casa naquelas condições. Foi preciso esperar que a natureza desse trégua, o que ocorreu só no começo da noite.
Quando Dirceu, enfim, conseguiu chegar à rua de sua casa, viu logo a presença de bombeiros, defesa civil, policiais fazendo barricadas. Ficou assustado. Seu coração começou a bater mais forte. Pensou na sua família, em Sofia, em Aline. Correu em direção a sua casa, mas foi impedido de entrar. Tentou de todas as formas, desesperado conseguiu se aproximar. Quando chegou em frente a sua casa, viu que sua esposa saia numa maca dos bombeiros, mas apresentava sinais de vida. A abraçou, a beijou, ao mesmo tempo em que chorava e soluçava, tamanha era a dor. Os bombeiros imediatamente a levaram para o hospital. Mas Sofia ainda não tinha sido localizada, o desespero continuava.
Se a chuva no centro da cidade provocou alagamento das ruas, no bairro de Dirceu provocou estragos maiores. O córrego próximo de sua casa subiu tanto que alagou todos os casebres que ali se encontravam. E como foi tão rápido, não deu tempo para os moradores saírem de lá. E sair de lá e ir para onde? Não havia escolhas.
Por volta de meia-noite os bombeiros conseguiram localizar o corpo de uma criança. Chamaram as pessoas para fazerem a identificação. Dirceu se apresentou prontamente. Quando chegou ao lugar em que estavam sendo colocados os corpos dos que não conseguiram sobreviver, foi tomado de uma dor muito forte e profunda, e aos berros chorava desesperadamente, ao ver Sofia com o rosto assustada, vestida com a camisa de futebol de seu time do coração.
FINAL 2
Aline conseguiu arranjar um trabalho de garçonete num bar, o que representava uma ajuda considerável no orçamento do casal, mas obrigou Dirceu a trabalhar mais cedo na pizzaria. À noite, ficava com Sofia. Seu dia preferido era às quartas-feiras, quando, escondidos da mãe, ele trazia pizza do seu trabalho e juntos assistiam ao jogos na TV. Toda quarta faziam uma mesma cerimônia: vestiam a camisa do time, sofriam em frente à televisão, comiam pizza com catchup, um tomava cerveja, outro refrigerante, xingavam o juiz, se abraçavam como loucos na hora do gol. Não raro, antes do fim do jogo, Sofia já estava adormecida no colchão colocado à frente do sofá, e Dirceu deitava junto dela, a abraçando por trás, e, muito mais concentrado no cafuné que fazia do que na TV que passava qualquer coisa, ele também dormia. Quando Aline chegava, cansada do trabalho, levava ambos para suas camas, apesar de muitas vezes penar para soltar aquele abraço que mal parecia de duas pessoas dormindo pela força que os apertava.
Uma quarta-feira qualquer, Aline não precisou levá-los para cama. O ritual foi como nos outros dias. Camisa, pizza, refrigerante, xingamento, abraço, mais xingamento. Com Sofia adormecida, Dirceu nessa noite não desceu ao colchão para deitar com ela. O mais provável é que a derrota do seu time tenha o deixado triste, e acabou preferindo dormir abraçado a si mesmo, com um tímido braço esticado para acariciar os longos pelos de sua filha.
Ainda meia hora antes de Aline chegar, o sono profundo de Dirceu foi interrompido por um rápido, mas assustador, estrondoso barulho. Quase numa reação impensada, não levou três segundos entre o tempo do barulho e a nova posição que assumiu abraçado à sua filha, como se já previra a necessidade de protegê-la de algo. E, curiosamente, foram esses mesmos três segundos que Dirceu pode ficar abraçado pela última vez à Sofia antes que a avalanche de terra os cobrisse por completo.
Quando Aline chegou em casa, viu a movimentação de moradores, bombeiros, policiais. Não podia imaginar o que estava acontecendo. Começaram a aparecer os corpos. Não demorou muito até que encontrassem um rapaz e uma menina, próximos de idade com o que ela tinha descrito e na exata posição; o pai abraçando a filha por trás. Mal foi necessário que, após limparem boa parte da terra, ela tirasse a prova final, os dois vestidos com a camisa verde do time de futebol, para que ela se jogasse sobre eles, sobre a terra, chorando, soluçando e pedindo, não se sabe se para eles, para algum deus, para os bombeiros, para a levarem junto.
eeetcha...Muito bom, rapazes. Mas fala sério: camisa verde?
ResponderExcluirEsse continho muito me lembrou dos que não aceitam que as pessoas torçam para time fora de seus estados e aí me veio a cabeça a saraivada que o mengão deu no fortaleza, deixando empolvorosa a maior parte do estado do ceará. Hehehe.
Parabéns pelo conto.
Bacana o texto, rapazes. Mas me tirem uma dúvida: como é essa história de produzir um texto em parceria com outra pessoa, hein? Sempre achei isso complicado e vocês fizeram bastante bem... Beijos
ResponderExcluirQue texto bacana , me envolvi muito com a narrativa, só achei que essa camisa do time podia ser rubro-negra e ainda com um símbolo de um time lá de Goias,, heheh. brincadeiras a parte, me cativou muit. o
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