Na caminhada que fazia pela orla da praia, ao contemplar ora as pessoas que cruzavam seu caminho, ora a paisagem que por muitas vezes conduzia o seu olhar ao horizonte, Rodrigo viu um rapaz jogar com a cabeça os seus cabelos lisos para trás, como se os quisesse tirar do seu rosto.
Aquela cena tomou toda sua atenção. Os pensamentos de Rodrigo voltaram-se para dentro de si, já não percebia os transeundes que por ele passava, tampouco as belezas que a natureza oferecia aquele lugar. Uma dor profunda atingiu seu coração que o fez diminuir lentamente a velocidade de seus passos, saindo em direção à areia da praia, longe de todo mundo. Ali, resolveu sentar no chão e aos poucos foi redobrando suas pernas, colocando-as próximas ao seu corpo, e em seguida abraçando-as, como se quisesse por meio desse gesto encontrar algum conforto. As lágrimas desceram do seu rosto, tamanha era a dor que sentia naquele momento.
As memórias que vinham a sua cabeça não possuía qualquer linearidade cronológica, mas iam se ligando uma a outra como se fosse um novelo de lã a puxar os acontecimentos que Rodrigo viveu em companhia de Márcio.
Foi assim que ao lembrar que sempre passavam juntos as férias escolares, pois os pais de Márcio fazia questão de carregar o melhor amigo do seu filho para onde quer que fosse, seus pensamentos foram remontados às brincadeiras de infância. Lembrou que sempre ganhava de Márcio na disputa no videogame, o que lhe causava um certo desconforto; nas no futebol reconhecia a superioridade do seu amigo, o que lhe proporcionava algum reconhecimento entre a garotada da rua e da escola.
Não era apenas no futebol que Márcio se destacava, em outros esportes ele também era muito habilidoso. No atletismo, dificilmente conseguia ultrapassá-lo em alguma corrida que disputavam. Engraçado foi perceber que esse era um dos tipos de brincadeira que sempre faziam quando já estavam cansados ou quando não tinham outra coisa para fazer. Era motivo que encontrava para continuar junto do seu amigo e não deixá-lo ir embora – uma estratégia inconsciente que montava, sem demonstrar seu desejo ao amigo –, pois sabia que Márcio gostava muito de correr e mostrar sua superioridade.
E foi justamente por isso, por querer mostrar sua superioridade, que Márcio foi o mais atrevido da turma, no alto de seus 13 anos de idade, quando arrancou o seu primeiro beijo de uma menina da oitava série, aquela que todos os alunos da escola admiravam sua beleza. Ninguém até aquele momento havia conseguido tanta proeza, apesar de dizerem o contrário nas conversas que tinham em turma. Márcio, naquele momento, se destacou entre a garotada.
Mas reconhecia que havia se tornado um rapaz namorador tanto quanto Márcio. Chegou inclusive a ter duas namoradas ao mesmo tempo, o que lhe exigia grande habilidade. Mas não teria tido o sucesso nessa empreitada não fosse a ajuda de seu amigo, sempre pronto para encobrir todas as suas mentiras. Lembrou que Márcio o conhecia a tal ponto, que houve situação que não foi preciso lhe antecipar o que estava acontecendo para que ele confirmasse a história inventada.
Também não foi raras as vezes em que escondeu dos pais de Márcio que ele havia andando de bicicleta pelo bairro, sem que tivesse consentimento para isso, quando seus pais saíam para o trabalho. Sair de bicicleta à deriva era como uma grande aventura, quando experimentava o prazer da liberdade, principalmente da liberdade proibida, o que exigia de sua parte que guardasse aquilo em segredo.
Era tantos os segredos que possuíam que somente nesse momento se dera conta disso. Alguns eram aqueles segredinhos de crianças, outros possuíam maior importância, mas não havia problema algum que fossem revelados, chegava a ser motivo até brincadeira cada vez esses acontecimentos guardados a sete chaves no passado eram contados. Mas sabia que quando foram necessários, esses segredos contribuíram para estabelecer a cumplicidade que passou a existir entre os dois.
Todos percebiam que eles eram amigos inseparáveis. Era a tal ponto que em muitas situações as pessoas perguntavam a um, sobre o que tinham conversado com o outro, como se eles fossem uma só pessoa. Engraçado era quando as pessoas sustentavam que era com Márcio que havia conversado quando na verdade foi com Rodrigo, ou o contrário. Se divertiam nessas situações, ao se reconhecer como grandes amigos.
Por muito tempo, sempre que estavam juntos ou iam a algum lugar andavam abraçados um ao ombro do outro. Não importavam o que os outros garotos falavam, que aos poucos foram deixando de tirar sarro dos dois, porque viam que não se tratava de nada de mais. Mesmo nessas ocasiões em que andavam abraçados, Márcio sempre jogava com a cabeça seus cabelos lisos para trás, fazia isso constantemente a ponto de nem perceber; era uma de suas manias, tornou-se uma de suas marcas.
Nesse momento, sentado na areia, com as pernas mais esticadas, um sorriso saiu do seu rosto. A lembrança de tantos acontecimentos que viveram juntos, a amizade, o companheirismo, a cumplicidade que tinham um pelo outro, era motivo de alegria, mesmo que seu amigo já não estivesse ali consigo para partilhar outros momentos que vida poderia proporcionar. Parecia que até aquele momento esta – a vida – havia estacionado. Foram dois anos de sofrimento, sem querer aceitar que nem tudo está sob o controle humano; que há mais dúvida e incerteza sobre nossa existência do que podemos compreender.
Refletir sobre tudo isso significava, de certo modo, um acerto de contas com o passado; o passado que foi tão intenso e significativo em sua vida e que, por isso mesmo, o impedia de avançar em direção ao futuro.
Não que tivesse que ignorar o que viveu, esquecer o que se passou; não era isso; era algo mais profundo; era preciso saber guardar para sempre, no seu lugar devido, esse passado que existiu, reconhecer o que significou e poder olhar para o horizonte, sustentado por aquilo que havia se tornado enquanto pessoa.
E o que havia se tornado não poderia ser explicado ou mesmo compreendido para seu próprio ser sem referência ao melhor amigo que tivera, que ficará guardado para sempre em seu coração, por mais vazio que ele se encontre.
gostei muito marcelao. qualquer semelhança com a realidade é mera coincidencia?
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