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sexta-feira, 3 de abril de 2009

"O pôr do sol é de quem olha"
(Millôr Fernandes)

quinta-feira, 2 de abril de 2009

DOR PARTIDA

Na sala grande dois homens, ainda jovens, sentados, esperando. Estava um em cada canto da sala e não se olhavam, como se um temesse que o outro rompesse o seu isolamento.
Vigiavam uma das portas. A outra que tinha na sala era a do elevador; no painel em cima estava aceso o número 1. O elevador também esperava.
Isso durou um longo tempo – o silêncio e a absoluta imobilidade dos homens; até que um deles verificou, sem virar a cabeça, que a luz do painel começou a correr para a direita, 2 – 3 – 4 – 5. A porta do elevador abriu e surgiu um terceiro homem, de estatura mediana, a olhar para todos os lados como se quisesse encontrar no instante momento o lugar onde se realiza o atendimento; possui um semblante em que o desespero torna-se a mais nítida expressão, numa mistura de dor e tristeza, capaz de chamar atenção de todos que ali se encontravam, levando, nem que por instantes, a esquecer o porquê de estarem naquele lugar. Não se tratava de qualquer pessoa, só pela manifestação corporal do seu sentimento, devia ser alguém que havia perdido uma pessoa amada, demonstração da grandeza dos que se doam à vida e entrega um pedaço de si a outra pessoa, mesmo que esta um dia realize a partida sem volta. Era o que acontecera. Ao localizar a recepção, o chegante perguntou:
- Quem está atendendo aqui?
Por algum momento não houve resposta. Os outros que ali se encontravam faziam que não prestavam atenção. Mas o outro que havia acabado de entrar tratou de insistir.
- Quem está atendendo aqui?
Logo saiu uma pessoa com jaleco azul, como que tirando uma máscara de proteção do rosto, e respondeu:
- O que deseja?
- Gostaria de saber quem é o legista?
- Meu senhor, aqui há vários legistas?
- Quero saber quem é o legista que está com o corpo de “Laura”?
Ao falar o nome “Laura” os outros dois homens se entreolharam assustados. Um logo se manifestou dizendo que também estava naquele lugar devido à Laura. O outro mais assustado ainda ficou, mas não titubeou também em se manifestar. Como ninguém conhecia um ao outro, ficaram por instantes sem saber como prosseguir com aquela situação. O atendente, sem que tivesse percebido, perguntou:
- Algum de vocês é parente de Laura?
O último homem a chegar, olhou para os outros dois sem muita demora, mas interessado em saber a ligação deles com Laura, procurou responder, demonstrando em sua voz a dificuldade de dizer, o que parecia que por muito tempo não dizia.
- Eu... Eu sou pai de Laura.
Falar que era pai de Laura, não só doía o coração pela certeza da partida infinita, como parecia apertá-lo com todas as forças, ao mesmo tempo em que corroia, pela lembrança que trazia em sua memória dos momentos mais felizes que vivera com ela. Era dor da partida. Era dor partida.
Os outros dois homens mais assustados ainda ficaram, não imaginavam que poderiam encontrar, tampouco conhecer, o pai de Laura, principalmente num momento como aquele. Um deles olhou de soslaio para o outro, vendo que não se deixaria conhecer tão facilmente, tratou de se apresentar.
- Eu sou amigo de Laura. Já ouvi muito falar do senhor, se não me engano é seu... seu Francisco – ao ver a confirmação no rosto de seu interlocutor, prosseguiu – meus pêsames. Conheci muito a tua filha. Tive um carinho muito grande por ela – um silêncio tomou conta do ambiente, mas logo prosseguiu – me desculpe, eu nem disse meu nome.
Antes que o diálogo continuasse, como fosse possível em momentos como esse ter espaço para diálogos alongados, o atendente falou:
- Vou chamar o legista que está cuidando do corpo de Laura.
A palavra “cuidando” soou um pouco estranha para os que ali se encontravam, mesmo que não conseguissem fazer uma elaboração mais acabada. Cuidar parece se referir ao zelo, à precaução, à atenção, o que torna sem sentido naquela situação, mas informa à consciência, como que por sinapse, que a pessoa a ser cuidada já não precisa mais de cuidado.
Quando o atendente saiu, o outro homem que ficara calado olhou para o pai de Laura, depois para o amigo que se declarara, e voltando novamente o olhar para seu Francisco, se apresentou.
- Não sei como poderei dizer, mas eu também conheci muito a tua filha.
O pai de Laura, transtornado ainda com a situação de sua filha, respira profundamente e não diz nada. É como se compreendesse que se tratava de duas pessoas que gostavam de sua filha e isso bastava. Não sabia e nem se interrogara naquele momento qual a ligação que possuía com ela. Entra naquela sala, acompanhado do atendente, o legista, olhando para os homens que ali se encontrava, pergunta já direcionando o olhar para seu Francisco:
- Quem é pai de Laura?
- Sou eu – respondeu seu Francisco. O que aconteceu com minha filha?
- Eu não sei responder isso ainda. Eu ia começar fazer a “análise” no momento em que me chamaram. Mas posso adiantar que seu corpo foi muito esfaqueado. Devo demorar em torno de uma hora para poder dar uma avaliação mais precisa. Gostaria que os senhores aguardassem aqui fora, por favor.
Ninguém disse mais nada. O legista se retirou. Novamente um silêncio tomou conta daquele lugar. Sem que ninguém dissesse nada, aos poucos cada um foi se acomodando nas poltronas espalhadas pela sala. Eram várias poltronas, cuja distribuição pelo ambiente ficava em forma de U, de modo que o pai de Laura ocupou o lugar mais ao centro e os outros dois homens ficaram cada um de um de lado de seu Francisco e de frente para o outro.
O pai de Laura ficara calado por muito tempo, pensativo, sem manifestar qualquer palavra. A dor que sentia o fazia deixar de pensar em qualquer outra coisa, somente naquilo que possuía relação com sua filha. E ao fazer esse tipo de ligação, foi percebendo que não conhecia aqueles homens que declararam conhecer sua filha, que há muito tempo não sabia quem eram as pessoas que sua filha se relacionava, quem seria capaz de praticar uma atrocidade daquelas, por que ele não insistiu em ir atrás de sua filha. Eram questões que não conseguia encontrar respostas definitivas no seu momento de introspecção, mas para cada uma daquelas perguntas aumentava o sentimento de culpa por ter conseguido ficar tanto tempo sem procurar a filha, desde que resolvera abandonar sua casa.
De repente, aquele primeiro que se declarou amigo de Laura começou a emitir algumas palavras, de modo pausado, como se quisesse colocar para fora o que sentia naquele momento e o que sentia pela perda de sua amiga. Aos poucos as palavras emitidas iam sendo embaladas, como se o emissor estivesse querendo pronunciar para si mesmo o que carregava em seu coração, sem que isso percebesse. Começou falando do seu primeiro encontro com Laura, como ela o impressionara naquela ocasião, despertando nele um sentimento nunca manifestado antes. Era no aniversário de seu amigo, namorado de Laura. Não podia e nem convinha se aproximar de Laura como uma mulher que desejava. Mas não conseguia esquecê-la. De forma inconsciente, mas as vezes também consciente, elaborava todos os artifícios para estar próximo da mulher que amava. Ela quase não percebera, apesar de alguns momentos conduzir a relação como se soubesse, mas nunca dissera, ele tampouco tinha coragem de ir adiante com aquilo, dividido entre a amizade e sua paixão. Sabia que valia a pena estar do seu lado, mesmo que não pudesse se entregar a ela, e ela a ele. Aquela situação durou tanto tempo que cada vez mais se tornava mais difícil qualquer declaração, foi tornando-se ainda mais amigo de Laura, mesmo depois que ela havia terminado o seu namoro, tornou-se seu confidente.
O tempo só é tempo porque muda. Perder o tempo é perder o momento exato. É claro, que é possível ganhar tempo, quem que nunca fez isso para conseguir realizar alguma coisa? E é possível também construir o seu tempo, o momento perfeito, a hora adequada. Esse é o melhor dos tempos, é o tempo sob controle. Assim também acontece nas relações amorosas, ou na possibilidade de relação amorosa. Perder o tempo, ou não ganhar tempo, ou não conseguir controlar o tempo, tem sérias chances de insucesso. Mas saibam de uma coisa: o tempo que dá certo mesmo é aquele que cada segundo segue o batimento do coração. O primeiro amigo de Laura que se manifestou não conseguiu entender isso. O tempo passou.
Ao ouvir aquelas palavras, o pai de Laura ia ficando mais tranqüilo, percebendo que sua filha fora capaz de despertar os mais sublimes sentimentos, que havia mais pessoas nesse mundo que a amavam. E mesmo que ele não estivera nos últimos anos ao seu lado, havia pessoas que dela gostava. O outro homem que ali se encontrava, ao ouvir cada uma das palavras do primeiro amigo que se manifestara, ia ficando impaciente, mas tinha a preocupação de não demonstrar. Aos poucos foi contorcendo seu corpo, como se quisesse se abraçar, com os olhos cheios de lágrimas, até que elas começaram a escorrer pela sua face. Tornou-se visível que aquele homem se incomodou com aquele relato. Em desespero, saiu correndo pela sala até o elevador, que se encontrava parado naquele andar. Foi embora para nunca mais ser visto pelas pessoas que mais amaram a mulher que fora esfaqueada.
(Adaptação do conto "Duzentos e vinte e cinco gramas", de Rubem Fonseca)

domingo, 29 de março de 2009


sexta-feira, 20 de março de 2009

PRECISO

Não é necessário, tampouco exato. Apenas preciso.

domingo, 15 de março de 2009

APENAS UMA GOTA NO OCEANO

Perto de meus amigos me sinto pequeno
É uma pequenez que ultrapassa meu ser,
Que revela por vezes inocência e ingenuidade

Pequenez essa que dar vazão à espontaneidade,
Sem a preocupação das conseqüências do falar,
Mas entendido como maldito
Que expressa a verdade, onde menos se quer encontrar

Pequenez que se distrai com que há de mais singelo,
Como a criança que se encanta pelas cores do arco-íris toda vez que o vê
Ou pelo vôo dos pássaros quando desfilam na passarela da liberdade

Pequenez que também me faz chocar com toda forma de perversidade,
Por desnaturalizar as tragédias ocultas da vida e reacender o sentimento de indignação,
Como a criança que vê uma briga e começa a chorar
Ou um cachorro machucado e passa a se preocupar

O sentimento existente neste pequeno ser
É tão grande que extravasa o seu tamanho
E, ao alcançar a grandeza de meus amigos,
Revela a gota no oceano de nossa amizade.


(Para Flávio, Wendell, Joisa, Felipe e Vicente)

A Realidade

A realidade bate-nos a porta todos os dias
Coloca-se nos nossos caminhos, em romaria,
Como uma pedra que nos leva a tropeçar
E ser percebida mesmo que não queiramos visualizar

Essa realidade tão real e concreta
Que incomoda e nos desperta
Não é a mesma para todos nós
É como se a percebêssemos a sós

A realidade que percebemos
A realidade que ignoramos
Existe dentro de nós
Mesmo quando nos corrói

Vivemos então num mundo de imaginação?
Onde cada um constrói a sua situação?
Não!

A realidade que existe em nós
Mesmo que percebemos a sós
Só é possível porque é externa
Não é uma invenção interna

Só existe internamente
Expressa em nossas mentes
Quando está fora da gente

(...)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Introdução da minha Dissertação de Mestrado

Por volta do final da década de 1970, nascia o décimo filho de Dona Teresa no norte do Estado de Goiás, hoje atual Estado do Tocantins, analfabeta e sem marido, porque este havia morrido recentemente em acidente de caminhão. Aquele bebê não poderia ter idéia das transformações que estavam ocorrendo no mundo e no Brasil, que de algum modo lhe afetaria, nem aquela senhora não poderia se dar conta das mudanças em curso. O que sabia e lhe incomodava era que precisava criar seus filhos e dar a eles uma vida melhor que ela tivera. Esse era o seu desejo e isso se tornou sua inspiração.
A população de modo geral é muito solidária. E o fato de Dona Teresa ter dado à luz uma criança que ficou órfã de pai e tendo que criar 10 filhos comoveram as pessoas que colaboraram com ela para que pudesse alimentar seus filhos. O grande paradoxo é que com essa situação muita ajuda foi oferecida o que proporcionou a essa mulher um dos momentos de maior abundância até então em sua vida.
Alguns dos filhos de Dona Teresa já se encontravam em idade de trabalhar. E logo que conseguiram encontrar emprego as condições de vida melhoravam, de modo geral, para todos da família. Mas essa melhora ainda não significava qualidade de vida. Sabia aquela mulher que era preciso buscar outras alternativas para que além de sobreviver, pudesse viver uma vida com dignidade.
Por isso, anos mais tarde, por volta de 1984, tomou a decisão de se mudar para a capital. Essa decisão constrangia a todos, porque não poderiam imaginar como uma mulher analfabeta conseguiria sobreviver na cidade grande. Mas, com a decisão tomada, não voltou atrás, colocou os poucos móveis que possuía num caminhão “toco” e seguiu adiante.
Ao chegar a Goiânia se dirigiu para um bairro da periferia da cidade, onde apenas a linha de ônibus era asfaltada, era poeira quando fazia sol e lama quando chovia. Era tanta gente naquele bairro que os ônibus saiam de lá sempre lotados. Num primeiro momento, alugou um barracão para morar até conseguir um lote, doado pelo governo, onde construiu sua casa, a qual pode depois vendê-la para comprar outra naquele primeiro bairro que havia morado na capital.
Logo seus filhos conseguiram encontrar emprego, o que possibilitou aumento de renda na família. Ela trabalhava também numa escola estadual, pois tinha vindo transferida daquele município do norte de Goiás. Os filhos mais novos, inclusive aquele que não conheceu o pai, já estavam estudando, pois Dona Teresa acreditava que uma vida melhor só poderia ser alcançada através dos estudos, estudos que ela não teve, mas não viveria satisfeita se seus filhos não tivessem também.
Assim, a vida de Dona Teresa foi se organizando, alguns filhos começaram a casar e pararam de estudar, mas já tinham de onde tirar seu sustento. Outros filhos continuaram estudando, o que muito orgulhava aquela senhora, que não conseguia entender como foi possível tratar com dignidade cada um dos filhos. Nenhum deles se tornou marginal. Todos obtiveram um rumo na vida.
Agora são seus filhos que batalham para conseguir um lugar para morar. A vontade é de morar perto da mãe, mas nem todos conseguem porque uma habitação no bairro de Dona Teresa é muito onerosa. Alguns deles para conseguir um lugar para morar terão que ir para algum bairro mais longe ainda, ou até mesmo para algum município vizinho. Mas estão em melhores condições de encaminhar esses problemas do que teve sua mãe nos idos dos anos 80.
Hoje Dona Teresa vive a grata satisfação de cuidar de sua casa, porque já se aposentou; ir à igreja, porque ela é muito religiosa; e se preocupar com os netos, porque os filhos já estão criados.

* * *

A história de Dona Teresa, apesar de ilustrativa, reflete um dos momentos em que o crescimento populacional de Goiânia se realizava com muita intensidade, tendo como um dos principais motivos o processo migratório. Morar na cidade grande, além do status que isso causava, significava também perspectivas melhores de vida. O sonho de uma vida melhor possivelmente deu certeza a muita gente que poderia migrar para a capital. A perspectiva da vida no interior que dependia da agricultura já não assegurava as condições de sobrevivência para boa parte das pessoas. O emprego no meio rural tendeu a diminuir relativamente.
Quem migrava para a cidade grande em busca de uma vida melhor, mas sem qualificação profissional ou com nível reduzido de escolaridade, tendia a se situar nas franjas da cidade, onde o aluguel era mais barato ou a possibilidade de conseguir comprar um lote ou mesmo uma casa se configurava com mais facilidade. O fato é que esses fatores contribuíram para a expansão da área urbana de Goiânia, fazendo com que seu crescimento transbordasse para outros municípios, que passaram a acolher boa parte da população migrante, quando as condições de aquisição de moradia na capital se tornaram reduzidas.
O governo, em muitos momentos, sentiu-se pressionado a oferecer moradia para a população ou dar a elas condições para que pudessem adquirir. Assim, surgiram diversos programas habitacionais, alguns mais significativos, outros menos, até que o padrão de renda da população tendeu a se elevar e fez com que o capital imobiliário passasse a ampliar seu leque de atuação e incorporasse a esse mercado segmentos sociais, que antes não tinham condições de determinar demanda efetiva. Os que não conseguiam adquirir imóveis na capital ou em áreas mais próximas do centro da cidade, devido ao seu valor, tiveram que mudar para áreas mais afastadas ou até mesmo para outros municípios.
É nesse sentido, que o mercado imobiliário passa a atuar de modo a atender diversos segmentos sociais. Nas décadas de 1970 e 1980, quando a legislação urbana era mais rígida e exigia que o loteador provesse a infra-estrutura, poucos foram os loteamentos aprovados. Na década de 1990, quando a legislação urbana foi relaxada, Goiânia viu explodir o número de loteamentos e, com isso, diversos segmentos de renda passaram a ser incorporados no mercado imobiliário para assegurar demanda efetiva em relação à oferta que estava sendo feita.
O que se observa é que, no momento em que os municípios adjacentes à capital passam a receber boa parte da população que não tinha condições de viver nessa cidade, o poder público colabora com o capital imobiliário, possibilitando que este tenha menores custos na produção da mercadoria que oferece, obtendo assim maior rentabilidade. Além disso, o capital imobiliário se utiliza de outras estratégias para aumentar sua lucratividade. Uma das mais emblemáticas é a agregação de valor ao loteamento que será lançado. Isso é feito normalmente com a construção de equipamentos públicos próximos a área do loteamento. Exemplo disso pode ser conferido com a construção da sede da Prefeitura num local que só mais tarde veio a ser construído alguns condomínios horizontais fechados de alto padrão.
Por outro lado, à medida que a cidade cresce e sua população passa a se estabelecer economicamente, alguns equipamentos privados são ampliados para outras regiões da cidade, possibilitando valorização das áreas próximas a estes equipamentos, como são os casos de bancos, shopping centers e hipermercados. Os empreendimentos imobiliários que são lançados, depois que essa área se valorizou, passam a ter um preço muito mais alto do que teria caso não houvesse a existência desses equipamentos. Mas isso só ocorre quando a população passa a ter condições de demandar esses novos produtos que lhe são ofertados.
O poder público colabora de outra forma com capital imobiliário quando aquele, para executar sua política habitacional, lança loteamentos muito distantes da área urbana construída. Isso faz com que ele seja obrigado a levar infra-estrutura para estes bairros, o que possibilita redução de custos para os loteadores privados das áreas intermediárias, ao mesmo tempo em que torna o seu imóvel mais valorizado.
Todas essas formas de ação do capital imobiliário, que, por muitas vezes, recebe a colaboração do poder público, dão feições particulares ao espaço urbano. Entender o modo como ocorre a produção recente do espaço urbano é o objetivo central deste trabalho. Para que isso ocorra, torna-se necessário que essa explicação esteja fundamentada em base teórica. Neste sentido, além de várias outras contribuições, este trabalho assentou sua análise no conceito de externalidade ou efeito de exteriorização, utilizado por David Havey, e na perspectiva conceitual de Pierre Bourdieu, em que se baseia o estilo de vida das pessoas e, por conseguinte, suas condições objetivas segundo sua posição ocupada na estrutura social, o que possibilita compreender como as pessoas segundo essas características se distribuem no espaço urbano.
Para tanto, tornou-se necessário que se fizesse uma análise das transformações sócio-econômicas no mundo e no Brasil que tivesse rebatimento na estrutura urbana e, em particular, no contexto da Região Metropolitana de Goiânia. Isso se colocou como uma necessidade à medida que se considerou que para compreender a produção do espaço urbano era importante compreender os motivos que levaram aquela situação. Neste caso, a compreensão da estrutura sócio-econômica, bem como suas mudanças, com destaque para a análise da estrutura populacional, mostrou-se relevante para a compreensão do caso particular de Goiânia. Esta discussão ocupa o primeiro capítulo deste trabalho.
Houve a preocupação, todavia, de analisar Goiânia no contexto de sua Região Metropolitana, uma vez que aquilo que ocorre nesta cidade afeta seus vizinhos mais próximos e, por outro lado, dada as condições de oferecimento de serviços nesses municípios Goiânia também é afetada pelo seu entorno, não seria mais possível interpretar os processos sociais ocorridos na capital desvinculada do seu contexto metropolitano.
Assim, tornou-se necessário compreender como é o padrão de organização sócio-espacial da Região Metropolitana de Goiânia, para que se pudesse a partir disso analisar as diferenças na estrutura urbana, bem como nas condições de vida das pessoas que se localizam em cada lugar da cidade. Para tanto, utilizou-se da metodologia elaborada pela Rede Observatório das Metrópoles, tendo em vista que nela se relaciona a estrutura social com o território urbano, conferindo uma tipologia sócio-espacial. Essa tipologia mostra as diferenças existentes no espaço urbano, tomando-se como proxy da estrutura social uma hierarquia socioocupacional que tem como variável principal a ocupação de trabalho, obtido pelo Censo Demográfico do IBGE. Com base nessa tipologia, tornou-se possível a avaliação das condições de renda, escolaridade e de moradia das pessoas, pois essas variáveis são das mais importantes para definição da qualidade de vida das pessoas. E isso foi realizado no segundo capítulo deste trabalho.
O terceiro capítulo, por sua vez, ao tomar por base a compreensão das transformações sócio-econômicas que afetaram a dinâmica urbana e o padrão de organização sócio-espacial da Região Metropolitana de Goiânia, passou a analisar algumas formas de intervenção no espaço urbano pela iniciativa privada, com a colaboração do poder público, principalmente referente à construção de novos empreendimentos imobiliários, como habitação unifamiliar, habitação coletiva e a construção de comércio em Goiânia.